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A Espiritualidade do Assombro

O escritor e poeta Ferreira Gullar certa vez afirmou que permaneceu dez anos sem escrever porque havia perdido a capacidade de se assombrar. Ferreira Gullar possuía dois filhos esquizofrênicos, sendo que um deles veio a se auto exterminar. Podemos apreender a capacidade do assombro como o escandalizar-se diante de acontecimentos, fatos e eventos que ferem a dignidade humana. Em “O Mal-Estar da Cultura”, obra de 1931, Freud afirma: “A vida é árdua como se apresenta”. Por si só o ato de existir já apresenta seus desafios e complexidades. Relativizar eventos como a corrupção na política brasileira, assassinatos por armas de fogo, trafico de drogas, violência contra mulher, pedofilia, abusos contra crianças e imigrantes são alguns exemplos. Segundo o Site G1 no ano de 2017 foram registrados no Brasil 59.103 assassinatos. A cada 9 minutos uma pessoa foi violentamente vitimada, destaca o site. O mesmo site informou que no ano de 2017 a cada duas horas uma mulher foi brutalmente assassinada.

Não é objetivo aqui promover uma análise estatística, mas uma reflexão.

De que maneira nos posicionamos frente a estes eventos? Escandalizo-me? Eu acho que é assim mesmo? Portanto, a capacidade de se assombrar é que nos coloca em movimento frente a tudo aquilo que nos desumaniza.

 

Freud (1913) em “Totem e Tabu” através do mito darwinista do pai primitivo propõe que o que funda a civilização (cultura) é a capacidade do homem de se organizar no mundo. A invenção da cultura, para o pai da psicanálise se deu justamente como recurso de enfrentamento da violência. A Partir de Freud pode-se afirmar que quanto mais violenta uma sociedade é, menos humanizada e menos cultural ela se torna. Entende-se “violência” como toda ação que fere a dignidade humana, seja ela física, moral, religiosa ou psicológica. Dignidade, palavra tão cara para a Igreja e de forma especial, para o Papa Bergoglio.

Na Exortação Apostólica Evagelii Gaudium (EG 52) o Papa afirma: “A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade”.

Assombrar para comprometer-se com a alegria, com a solidariedade e com o amor tal como nos propõe Lucas (Lc 15ss). Precisamos de homens e mulheres que manifestem a alegria e a solidariedade, revestidas de ações pastorais e subjetivas concretas, pois o amor autentico exige ação. Não existe justiça fora da dignidade humana. A verdadeira realização humana se dá na alegria evangélica. E para tal é imperativo que haja plena saúde corporal, psíquica e socioeconômica. Nesse contexto propomos que as práticas de nossas Dioceses devam aprimorar-se para a valorização da vida integrada, corpo-espirito-mente. O cristianismo é muito mais que Religião, é um jeito de ser.  É ser na vida do outro para que ele seja em si mesmo e no mundo. Não amamos e cuidamos do outro para nós mesmos, mas para que ele seja feliz em si mesmo e no universo no qual está inserido.  Somos todos residentes temporários deste templo maior que a nossa terra mãe. Devemos cuidar de tudo que vive e existe segundo o chamado do Pai.

*Márcio Euripedes Gomide é psicólogo e psicanalista.

 

Referências:

https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/brasil-registra-quase-60-mil-pessoas-assassinadas-em-2017.ghtml

Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: totem e Tabu vol. 11. OMal Estar da Cultura, Vol.21 1931; Rio de Janeiro: Imago, 1996b.

Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho); do Papa Francisco. São Paulo. Ed. Paulinas. 2013.

 

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