Destaques Formação Permanente

Espiritualidade e Vida

Ele reveste todo o céu com densas nuvens e a chuva para a terra Ele prepara;

faz crescer a verde relva sobre os montes e as plantas que são úteis para o homem

Ele dá aos animais seu alimento e ao corvo e a seus filhotes que o invocam.

Salmo 147(146-147), 8-11.

 

Nossa sociedade de hoje é marcada por muitos desafios, crises, muitos questionamentos, pouca compreensão e quase nenhuma resposta. É uma sociedade bem diferente dos séculos passados, uma sociedade muito complexa. O “pré-estabelecido” já não agrada a maioria das pessoas! Há um desejo pela novidade, pelo inesperado, e ao mesmo tempo, falta a força, talvez de vontade, para lidar com tantas adversidades.

Não podemos negar que toda a sociedade está em profunda transformação e nós também, consequentemente, estamos em constante mudança. Tanto movimento causa um certo desconforto! Mas, o que justifica nossa “correria” diária? Por que mostrar que somos capazes o tempo todo? Não há espaço para nossas fragilidades? Refletimos sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos?  Qual o sentido da vida? Do mundo? Por que cremos em Deus? E por que buscamos por um Deus? Vivemos amontoados de tantas tarefas, deveres, estudos, trabalho, família, amigos, diversão, e tantas outras coisas que buscamos para ocupar o nosso tempo e a nossa cabeça. Não paramos! Será que fugimos de nós mesmos?

A consequência desta agitação não é nada boa, uma verdadeira tragédia! Essa “correria” causa o esgotamento, o cansaço, a falta de autoconhecimento e autorrealização pessoal, assim, não podemos estranhar os números elevados de pessoas com depressão e vítimas do suicídio, o aumento da violência, o ódio, a insatisfação social. A pessoa não mais dá conta de si mesma. É forçoso assumir sua condição, principalmente uma condição frágil, ferida pelo pecado, limitada. A pessoa humana não é capaz de realizar tudo!

Para o professor Jacil Rodrigues de Brito (p.14,2011), na chamada “correria” deixamos passar despercebidas as coisas mais bonitas do nosso povo. É preciso elaborar algo que nos auxilie na aquisição de um pouco de disciplina, que ensine a amar o sublime e a dar alguns passos em direção ao nosso interior carente do nosso próprio carinho e afeição. É o caminho da espiritualidade, eu vos digo! Espiritualidade para a vida, ou melhor ainda, a espiritualidade é o caminho para o bem viver.

 Diante desta realidade podemos fazer uma ligação com o texto bíblico. Quando a humanidade desobedeceu à Deus, “comendo do fruto da arvore do conhecimento” (Gn2,17;3,6-7), passou a se reconhecer ela mesma, ou seja, passou a conhecer o conhecimento de si mesma. O humano sabe que sabe e sabe de si mesmo. Esta realidade possibilitou perceber quem ele é realmente. Neste contexto o próprio Deus faz uma pergunta existencial ao humano, pergunta que está inserida no mais profundo do nosso ser!  “Adâm” – que significa humanidade – “Onde estás?” (Gn3,9). Esta é a possibilidade de reflexão que Deus mesmo nos provoca.

O verbo ser/estar em diversas línguas são representados pela mesma palavra. Partilhando algumas questões com o professor Jacil R. de Brito, ele atesta que até mesmo o tetragrama em hebraico, que forma o nome de Deus, possibilita o verbo “SER” no futuro YHWH (aquele que serei); não é por menos que Moises ao questionar sobre o nome de Deus obtém a resposta “EU SOU” (Ex3,13-14). E ainda mais, se aproxima do nome que traduzimos por Eva – o verbo “SER” no presente, HWH (a mãe de todos os viventes). Quão importante é esta questão do ser para o povo semita, quanto mais o é para nós! Onde estamos no horizonte de nossas vidas? O que estamos fazendo de nós mesmos? Qual o melhor caminho a seguir? Na sequência da narração bíblica “Adâm” se esconde de Deus porque teve medo de olhar e assumir a si mesmo e, também, medo do olhar de Deus sobre sua nudez. Em sua fragilidade “Adâm” se priva da presença do Criador.

Nós não podemos ter medo de olhar para nós mesmos, nossos pecados, nossas fragilidades, nossa nudez. Não podemos temer o olhar do Criador, pois, somente Ele é capaz de nos libertar a todos. Ele nos conhece profundamente, sabe aquilo que que somos e o que seremos; Deus quer sempre nos ajudar a escolher, a caminhar e a ser. A espiritualidade é o caminho para a vida! Uma espiritualidade encarnada na vida humana, em nossa corporeidade, em nossa fragilidade, nas alegrias e nos sofrimentos. Uma espiritualidade capaz de nos permitir a demorar-nos no contemplativo, no descanso, no respirar lentamente, na criação, em tudo o que escapa a lógica da “correria” diária.

O método? Que tal uma espiritualidade da criação? O teólogo Matthew Fox, nos deixa algumas dicas. A espiritualidade da criação é encarnada na vida humana, ela rejeita a maneira neoplatônica [separação entre corpo e alma] de caracterizar o movimento do espírito que, além de pouco bíblica, desconsidera o encanto e o prazer, a criatividade e a justiça, menospreza as realidades terrenas, não é originalmente cristã!

São quatro passos simples que podemos por em prática no nosso dia a dia, não na “correria”, mas num tempo nosso, tempo de reflexão e interiorização, com certeza vai nos ajudar muito.

O primeiro passo é o maravilhar-se e encontrar-se – Na via positiva, o maravilhar-se, no gesto de admirar, no mistério da natureza e de todos os seus seres, sendo cada um deles uma “palavra de Deus”, um “espelho do Criador que brilha e resplandece” para nós, no dizer de Hildegard de Bingen. Aqui é preciso deixar se apaixonar ao menos três vezes ao dia, seja pelo amigo, por si mesmo, por uma estrela, uma árvore, por Deus.

O segundo passo é a experiência da obscuridade – Na via negativa, na obscuridade e na experiência do nada, no silêncio e no vazio, no deixar-se avançar e vir a ser. Na dor e no sofrimento, na angustia da existência, que são partes igualmente reais de nossa jornada espiritual, este é o segundo passo. Aqui é preciso assumir a dor, “a noite escura” de que falam os místicos, o mistério da obscuridade nos impele a ousar na escuridão e nos libertar, nos deixar avançar e vir a ser.

O terceiro passo é ato de criar e imaginar – Na via criativa, em nossas ações geradoras, somos co-criadores com Deus. Em nossas operações imaginativas, confiamos o bastante nas próprias imagens para transfigurá-las em realidade, é o terceiro passo. Aqui é preciso não relutar em “dar à luz”, eis o ápice da espiritualidade da criação, a medida que nossa criatividade e imaginação é colocada a serviço da compaixão, do amor.

O quarto e último passo é o encontro com a justiça e a celebração da compaixão – É a via da transformativa, no alívio do sofrimento, no combate à injustiça, na luta pela “homeostase” que é o (equilíbrio orgânico), em prol da igualdade social, e no gesto celebrativo o qual acontece quando pessoas comprometidas com a justiça ou empenhadas na vida comunitária se reúnem para rezar e agradecer o dom de viver e de viver em comunhão, eis o quarto passo. Aqui resta apenas um convite: sede compassivos assim como vosso Criador, que está no Céu, é compassivo.

 

Lucas André Pereira da Silva

Sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm12,1).

Seminarista na Diocese de Sete Lagoas

[email protected]

(31) 9 8438-4574

 

Para aprofundamento:

BÍBLIA DE JERUSALEM. São Paulo: Paulus, 2012.

BRITO, Jacil Rodrigues de. Faça de sua casa um lugar de encontro de sábios: teologia sapiencial. São Paulo: Paulinas, 2011.

BRUM, Eliane. O suicidio dos que não viram adultos nesse mundo corrido. In: Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/580051-o-suicidio-dos-que-nao-viram-adultos-nesse-mundo-corroido > Último acesso mar. 2019.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, Rj: Vozes, 2017.

MATTHEW FOX. Para uma Espiritualidade da Criação: “Os quatro passos”. Tradução de L. E. Nogueira. In: MATHEW FOX. Criation Spirituality; liberation gifs for the peoples of the Earth. San Francisco, Harper, 1991. p. 17-24.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Prevenção ao suicídio: um recurso para conselheiros. Disponível em: < https://www.who.int/mental_health/media/counsellors_portuguese.pdf > Último acesso mar. 2019.

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Voz do Pastor

Dom Aloísio Vitral

Quinto Bispo da Diocese de Sete Lagoas, empossado para essa Igreja Particular no dia 16 de Dezembro de 2017.

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