Formação Permanente

Inácio, o santo peregrino na busca da vontade de Deus

Dia 31 de julho é a festa de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, (Jesuítas)

 

A vida dos santos sempre nos provoca de algum modo. Seja pelo heroísmo, pelo martírio, pela humildade, pela audácia, ou pela síntese desses e outros tantos méritos. Contemplar a vida de um santo hoje deveria nos desafiar. Não se trata de começar por onde os santos terminaram, mas de trilhar um caminho próprio à luz do encontro pessoal com Cristo e seu projeto de Reino. Como seria bom se os muitos santos e santas que ostentamos em nossos altares nos inspirassem mais que apenas devoção e piedade. Contemplar a vida dos santos é aprender deles e fazer despertar em nós o desejo de viver a radicalidade do Evangelho, nas coisas simples do nosso cotidiano e frente às dificuldades de nosso tempo.

Dia 31 de julho é a festa de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, (Jesuítas). Ele foi um desses homens que em seu tempo, uma vez se encontrado com o Cristo pobre e humilde, desejou segui-lo.

Nascido em Azpeitia, Espanha, em 1491, Íñigo, que adotaria o nome de Inácio, seguiu carreira militar, mas ao cair ferido na batalha de Pamplona, em 1521, teve sua vida mudada radicalmente. Durante sua recuperação, em Loyola, quis ler livros de cavalaria, porém, na casa em que estava os únicos livros que havia eram a Vida de Cristo e a Vida dos Santos. Sem muito interesse, começou a ler e acabou tomando gosto pela leitura. O jovem Inácio sentiu-se provocado a tal ponto pela vida dos santos, que sentiu o desejo de imitá-los em suas façanhas. Ele pensava consigo: “E se eu fizesse isso que fez São Domingos? Ou isto que São Domingos praticou?”. A partir desse episódio, Inácio trilhará um longo caminho de conhecimento de si, de Deus e do mundo, que o transformará por inteiro, levando- o a se tornar o santo que conhecemos hoje. Passando os seus últimos anos em Roma, governando a Companhia de Jesus, Inácio morreu em 31 de julho de 1556 e, em 1622, foi canonizado pelo papa Gregório XV, no mesmo dia que outros grandes santos: Isidoro Lavrador, Teresa de Ávila, Felipe Neri e Francisco Xavier.

Olhando para a história de Inácio podemos nos perguntar o que a sua vida pode nos inspirar ainda hoje. Para ficarmos em apenas dois pontos, dos muitos que mereceriam ser destacados, deixemos nos provocar pelo Inácio Peregrino, que busca sempre encontrar a vontade de Deus em sua vida e em seus projetos.

Inácio foi alguém em constante peregrinação interior, acompanhada muitas vezes de uma peregrinação exterior, tanto que em sua autobiografia, ele é identificado como “o Peregrino”, pois a sua vida nova começa justamente com uma partida, com o pé na estrada. Em 1522, ele abandona sua casa em Loyola para ir a Jerusalém, passando por experiências significativas em Montserrat e Manresa. A peregrinação do santo continuou pela Itália, onde visitou Veneza e Roma, passando pelo Chipre e embarcando, por fim, para a Terra Santa.

Ao ler a experiência do peregrino, trazendo-a para os nossos dias, podemos dizer que peregrinar hoje é mais do que traçar longos caminhos e empreender grandes viagens. Ao exemplo de Inácio, é dar um passo a mais, encontrar o novo e estar sempre em busca da “maior glória de Deus”. O Inácio Peregrino contempla a novidade do caminho e vive com profundidade, até os limites extremos. Ele vive o despojamento radical de si e de tudo o que tem. Tornar-nos peregrinos é contemplar uma face nova da nossa vida, é sair da acomodação ou, ainda, como lembra Dom Helder Câmara, “é parar de dar voltas ao redor de nós mesmos, como se fossemos o centro do mundo, da vida; é não deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos, pois, a humanidade é maior”.

Um segundo ponto da vida de Inácio que pode nos iluminar hoje é buscar e encontrar a vontade de Deus, à luz do discernimento. Em 1538, Inácio e seus primeiros companheiros chegam a Roma para se colocarem à disposição do Papa para que ele os enviasse aonde julgasse mais útil. Eles, portanto, teriam que decidir se iriam permanecer unidos enquanto grupo de amigos e de qual modo se daria isso. Surge então um grande questionamento: qual será a vontade de Deus para cada um e para todo o grupo?

Nesse processo de descoberta da vontade de Deus esteve presente o discernimento, a oração e a escuta atenta de si, dos outros e de Deus. Tal processo de busca e discernimento culminou na fundação da Companhia de Jesus, que acabou sendo aprovada pelo papa Paulo III em 1527.

Nossa vida, igual a de Santo Inácio, também se vê envolta por questões que exigem discernimento e a busca da vontade de Deus, que nem sempre se apresenta de modo claro e explícito. Sucessiva e indefinidamente, as dificuldades surgem e devemos solucioná-las. Então também podemos nos perguntar: como buscar e encontrar a vontade de Deus, em meu cotidiano, em  meus projetos? Esse exercício de fé e confiança passa por nossa liberdade e por nossas decisões. Aqui, cabe o constante exercício do discernimento, da oração e da escuta: de si, do outro e escuta de Deus. Que espaço e protagonismo Deus tem tido em minhas decisões, dúvidas e questionamentos? Como tenho buscado e encontrado a sua divina vontade? É sempre oportuno nos perguntarmos.

Inácio foi um homem com os defeitos e qualidades próprios do seu povo e de sua época. Nós também o somos hoje. Inácio foi um peregrino de Deus, um buscador da vontade divina, alguém que escutou e discerniu constantemente, que transmitiu sua experiência, que se apaixonou por Cristo e inspirou outros tantos a fazerem o mesmo. E isso nós também podemos fazer, em nosso tempo, em nosso cotidiano, do nosso modo.

Por Carlos César Barbosa, SJ*

*Carlos César é graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Estudou na Universidad de La República (UdelaR), em Montevideo. Atualmente estuda na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. (FAJE); é jesuíta. E-mail: [email protected]

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Dom Aloísio Vitral

Quinto Bispo da Diocese de Sete Lagoas, empossado para essa Igreja Particular no dia 16 de Dezembro de 2017.

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