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Quaresma: das cinzas à ressurreição

Quaresma é tempo de conversão, oração, penitência e caridade. Tudo começa com a Quarta-Feira de Cinzas como um divisor de águas para um novo tempo, marcadamente simples (fazemos alusão aqui a uma reserva litúrgica), introspectivo e propício ao arrependimento (do grego metanóia) de nossos pecados, abrindo-nos à conversão, pois o Reino de Deus está próximo e conta conosco para efetivá-lo já aqui, mas ainda não absoluto. Somos contribuintes importantes para o fomento e a consolidação do Reino que é de Deus, no qual somos partícipes. Na Quaresma, a Igreja do Brasil, a partir da CNBB – Conferência Nacional do Bispos do Brasil, nos convida a debruçar e a meditar, à luz do Evangelho de Jesus Cristo, sobre temas contundentes e que estão na pauta da sociedade brasileira e Global. Neste ano, a Igreja, com a Campanha da Fraternidade propõe-nos refletir sobre “Fraternidade e Políticas Públicas”.

A Quarta-feira de Cinzas tem um significado icônico (de imagem que lembra sempre algo a mais) que está sustentado pela simbólica do pó no Antigo Testamento (AT). Em Gn 3,19 escutamos do narrador bíblico: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”, seja em tempo oportuno, querido por Deus, ou em tempo abreviado, querido por nós mesmos. Cinzas nos lembra o que é mais efêmero, ao que era e já não é mais. As cinzas de uma madeira de árvore frondosa não é mais uma madeira árvore frondosa. As cinzas no AT também sinalizam penitência. Em Jó 42,6 o narrador diz: “Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza”. Em Dn 9,3 se diz: “E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza”. Segundo o livro de Números (19,17), no ritual de expiação (kippur em hebraico), prescreve-se: “Para um imundo, pois, tomarão da cinza da queima da expiação, e sobre ela colocarão água corrente num vaso”. O profeta Ezequiel (27,30) diz: “E farão ouvir a sua voz sobre ti, e gritarão amargamente; e lançarão pó sobre as cabeças, e na cinza se revolverão”. Novo Testamento (NT), em Lc 10,13, interpretando fatos do AT se lê: “Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito, assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido”. Portanto, as cinzas assinalam o arrependimento e a lembrança de que as cinzas de nossa decomposição se assemelharão a terra, de onde nascemos e onde vivemos. Marcadas sobre nossas faces ou cabeça se diz: “Arrependei-vos, e crede no evangelho” (Mc 1,15).

Na liturgia da Quarta-feira de Cinzas, ouvimos as palavras do Profeta Joel, (2,12-18), um sacerdote do povo pós exilado (após o século VI a. C.), que nos convida à conversão mais sincera e profunda, a que vem do coração (em hebraico Lev). “Rasgai os vossos coração e não as vestes”. Rasgar o coração significa tornar-se indignado ao mal que quer habitar em nós, ou ao mal que já ganhou solo fecundo em nós, que já estabeleceu suas raízes e infelizmente já está fecundado em nossas atitudes: mesquinhas, egoístas e destruidoras. O jejum proposto pelo projeta é deixar de consumir as maldades e não simplesmente a comida. O jejum é a prática do controle das paixões que ganham solo fecundo em nossa vida. Na segunda leitura, 2Cor 5,20-6,2, o apóstolo Paulo nos chama à reconciliação com Deus, ao perdão que nos aproxima do Criador. E no Evangelho (Mt 6,1-6.16-18), Jesus nos convida às práticas de penitência, que nos conduzem a uma vida divina: a esmola, o jejum e a oração. A esmola nos coloca em relação com o próximo. Se temos o necessário para viver é necessário que o outro também o tenha. O jejum nos coloca em relação a nós mesmos, é preciso frear a compulsão à gula, o desejo de termos tudo apenas para nós, não somente no aspecto alimentar, mas da própria ganância. Enfim, a oração nos coloca em relação a Deus. Nossa oração deve ser realizada na intimidade do quarto, do nosso coração. Deus escuta nossas preces, não precisamos gritar e nem escandalosamente chamarmos sua atenção. Ele está presente em nosso peito, pelo Espírito que nos acompanha pelo Batismo.

Na perspectiva Quaresmal, de revisão de vida, a Igreja no Brasil nos convida a colocarmos a mão na massa da História do mundo. Fraternidade e Políticas Públicas, a Campanha da Fraternidade deste ano de 2019, é um convite a pensar e levar a termo uma política pública que possa ajuda a vida de tantas pessoas que são vítimas do sistema que exclui, que marginaliza e mata. Políticas públicas como o termo condiz, trata-se de ações na Pólis, na cidade e no mundo. São atividades e ações desenvolvidas pelo povo, inciativas próprias, seja de uma ou duas pessoas ou de uma comunidade de fé, como a Igreja. Nossa paróquia tem iniciativas públicas, que visam a garantir a inclusão de pessoas ou a melhorar suas vidas em aspectos ameaçados. Contudo, a Campanha tem em foco a consciência política, não politiqueira, dos fiéis da Igreja. Todos podemos nos tornar promotores de cidadania, de ações que concretamente possam interromper ou até converter o dinamismo desumanizador da sociedade na qual nos encontramos. O cristão é desafiado a viver bem seu microcosmo, sua vida e suas relações mais próximas, mas contribuir com o macrocosmo, com o mundo, com a natureza, a Mãe Terra, onde ele faz morada.

Por fim, é possível pensar e promover o respeito à dignidade da mulher, dos pobres, dos que vivem outras condições sexuais, dos negros e de tantas pessoas vítimas de violência e intolerância, se promovemos ações de paz e tolerância, pautadas no Evangelho e sobremaneira no Mandamento do Amor, que Jesus nos convida a viver. Há como mudar o pensamento em relação à política, quando pensamos no desafio do futuro de nosso país e do nosso planeta Terra. Falando do micro contexto, de nossa paróquia, há aqui, por exemplo, pessoas que se dedicam à saúde de outras, à Ação Social e Política, há também pessoas que pensam na necessidade material de tantos desfavorecidos, o Domingo de Belém. Mas há muito que se fazer. Imaginemos se todos nós que podemos oferecer serviços gratuitos nos colocássemos à disposição de outras pessoas que não podem pagar por eles, talvez teríamos uma sociedade mais saudável e capaz de superar seus próprios desafios. Enfim, a Quaresma pode ser um tempo de oração, jejum e esmola e também um tempo de reflexão acerca deste desafio que a Igreja Católica do Brasil nos chama a assumir. A Igreja segue os passos de Jesus de Nazaré que não pensou em si apenas, mas viveu para que outros tivessem vida e vida em plenitude (cf. Jo 10,10b).

por padre Junior Vasconcelos Amaral,

pároco, doutor em Teologia e professor de Sagrada Escritura na PUC Minas.

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