Formação Permanente

Um Sopro de Vida Nova em Pentecostes

“Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais.
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia,
               Amar e mudar as coisas me interessa maisAlucinação – Belchior

Neste domingo próximo a Igreja celebra a grande solenidade de Pentecostes, esta celebração comemora o envio do Espírito Santo de Deus sobre os Apóstolos. Para o evangelista João, este evento aconteceu “à tarde daquele mesmo dia” (Jo 20,19), no anoitecer do Domingo da Ressurreição. O evangelista Lucas, por outro lado, faz uma leitura teológica deste evento que evoca o Dom da “ToRáH” (Lei) no Sinai. Coloca-o cerca de 50 dias após a Páscoa de Jesus, “tendo-se completado o dia de Pentecostes” (At 2,1); fazendo coincidir com a festa da colheita dos Judeus (Ex 23, 14ss). Ao receberem o Espírito Santo, os Apóstolos são revestidos da “força do Alto” (Lc 24, 49). São revestidos da diversidade dos dons e carismas do Espírito, para a unidade e o testemunho cristão, “há diversidades de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Cor 12, 4).

É diverso a maneira com que o Espírito Santo se manifesta: pelo sopro, pela natureza, pela cultura dos povos. O Espírito é livre e se manifesta em todo o mundo e em diversas situações. A arte é um dos lugares em que há manifestação e ação do Espírito Santo. Por isso mesmo, a arte nos permite fazer uma experiência de encontro com o nosso ser interior e com Deus. De modo muito especial, a música tem essa característica muito forte, é de sua natureza religar-nos a nós mesmos e a Deus, fazendo-nos transcender e muitas vezes dizemos: “nossa, viajei ouvindo essa música”. Não apenas a “música sacra”, ou a “música clássica”; muitas pessoas fazem uma experiência mística de uma forma muito pessoal e subjetiva, isto é, encontram uma relação sagrada de maneira diferente e diversificada, assim como é o Espírito. É por este motivo que não cabe muitos julgamentos no campo artístico, a arte é livre.

Nesta perspectiva, a música “alucinação” do cantor, compositor e professor Belchior, é muito boa para nos ajudar a aproximar do mistério que é celebrar Pentecostes. O envio do Espírito Santo, longe de ser uma alucinação, é uma realidade que os Apóstolos experimentaram; é a mesma realidade que cada batizado se insere no hoje de sua história. A música fala do mundo, das condições de existência, da urgência do jovem brasileiro entre a violência do Estado e o fim dos sonhos de liberdade, da alucinação diante da realidade. A alucinação é a percepção de algo que não existe objetivamente, mas que é tomado como existente. É uma impressão subjetiva de que algo é real sem que exista fora da cabeça alucinada. Funciona como uma espécie de anestesia diante do que é real, ou do doping como trata Byung-Chul Han em “a sociedade do cansaço”.

“Vinde, Espírito de Deus. Vós que unistes tantas gentes tantas línguas diferentes, numa fé, na unidade, para buscar sempre a verdade e servir o vosso Reino com a mesma caridade. E cantaremos aleluia! E a nossa terra renovada ficará, se o vosso Espírito, Senhor, nos enviais” (Frei Fabreti).

O envio do Espírito Santo nos impede de cair na alucinação. Pois, é Ele que nos “ensina e nos recorda tudo o que Jesus fez e ensinou” (Jo 14, 26), na história da salvação que é a mesma história da humanidade. Nos faz olhar para a nossa realidade e anunciar um tempo de paz e esperança, nos faz profetas (1Cor12,10). O sopro de Jesus sobre seus Apóstolos (Jo 20, 22), símbolo do Espírito Santo, é um sopro de Vida Nova! Este sopro está ligado diretamente à “re-criação” humana, ou seja, a humanidade, possuindo o sopro de vida desde a Criação (Gn 2, 7), ao receber o sopro do Espírito Santo, passa da realidade de morte, para a esperança na Vida Eterna. O Espírito Santo é Vida Nova para a humanidade! Por isso, no batismo, nós deixamos o homem velho e nos revestimos do Homem Novo (Cl 3, 8-10); temos por modelo de Homem Novo o próprio Jesus Cristo, Novo Adão. Somos convidados a ter os mesmos sentimento de Jesus, convidados a amar e a guardar – pôr em prática – as palavras de seu ensinamento (Jo 14, 23). Identificar-nos como cristãos significa dar testemunho autêntico, diante do mundo, dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. Olhando para o nosso tempo, para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podemos dizer que encontramos e reconhecemos verdadeiramente os “sinais” do amor de Jesus?

Retornando a letra da música, Belchior, nos leva a refletir sobre o cotidiano preconceituoso e limitante no qual estamos vivendo até hoje. A música segue com um tom melancólico, traz meditações tão reais sobre a sociedade, sobre a vida repetitiva e vazia que muitos levam, sobre as hipocrisias, as mentiras, as violências. O Espírito Santo, que se insere no hoje da nossa vida não nos permite isentar da responsabilidade social e do cuidado para com o bem-comum; somos chamados a viver na nossa realidade os ensinamentos de Jesus. Não podemos transformar a nossa fé em uma alucinação futurística; alucinação da perfeição; alucinação do medo. Se o Espírito Santo é Vida, somos chamados a promover a vida e vida com dignidade, com respeito, com justiça, perdão e misericórdia, para todos. Certamente onde há superação da morte, da violência, da injustiça, há ação do Espírito Santo! O Espírito é vida e sopra onde quer.

Nós podemos mudar nossa realidade! Temos o Espírito Santo de Deus para nos ajudar na vivência (já) do Reino de Deus, para que seja plenificado com a segunda vinda de Jesus. O Espírito é sopro de vida, transforma o barro sem movimento na imagem de Deus, transforma o egoísmo em amor partilhado, transforma o orgulho em serviço simples e humilde. É Ele que nos faz vencer os medos, superar as covardias e fracassos, reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, sonhar e realizar um mundo novo de justiça e paz. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito Santo em nós e nas nossas comunidades. Estar atentos aos sinais do nosso tempo, seus apelos, suas indicações, seus questionamentos e deixar o Espírito agir. Não podemos concordar com as injustiças, mas transformar nossas ações. A música lança aos nossos ouvidos o som suave da transformação: “amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais”. 

Lucas André Pereira da Silva – Seminarista na Diocese de Sete Lagoas

 

Referências

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2012.

BELCHIOR. Alucinação.Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9K3Wj5BZBF4

FREI FABRETI. Vinde, Espírito de Deus. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rcfNKFYK3H8

DEHONIANOS. Liturgia: Unidos pela Palavra de Deus. Disponível em: https://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=2532

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Share This