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A escuta no “divino ofício do pastoreio”

“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27)

A imagem do Bom Pastor está carregada de simbolismos interessantes, embora não tenha tanto impacto no contexto urbano em que vivemos, onde os valores da igualdade e democracia parecem estar em contradição com a imagem de rebanho conduzida por um Pastor. No entanto, para muitos, as imagens do “cercadinho” e a do “gado manipulado” parece não causar tanta estranheza.

Jesus não foi, nem quis que os seus seguidores fossem “ovelhas e cordeirinhos” submetidos aos controles de seus pastores, nem obrigados a cumprir normas e costumes impostos por aqueles que se dizem responsáveis pelo rebanho.

Rebanho não é anulação das identidades, nem uniformidade no modo de pensar, agir e ser. Cada pessoa é diferente, única, com experiências, expectativas, medos, ansiedades, desejos, fortalezas e fraquezas, com seu ritmo e modo próprios de viver.

“Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem ao Evangelho o melhor possível no meio de seus limites e podem desenvolver seu próprio discernimento diante de situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, mas não pretender substitui-las” (Papa Francisco – Amoris Laetitia).

Jesus, no ministério do seu pastoreio, ensina e atua com “autoridade”, e não como os escribas e fariseus. Ele revela o dom de ativar a autonomia em cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remetê-la a si mesma, de ajudá-la a se conectar com seu ser profundo, com aquilo que é mais divino no seu próprio interior. Pastoreio que possibilita cada um viver em plenitude consigo mesmo.

Jesus é Pastor porque não impõe nenhuma doutrina nem complica a vida das pessoas com a carga da lei; Ele é Pastor porque, ao contemplar os rostos das pessoas, vê, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes; Sua presença inspiradora faz emergir o melhor e mais humano que há no coração de suas “ovelhas”, reconstruindo a humanidade ferida e abrindo sentido para sua existência.

“divino pastoreio” significa trazer para fora ou extrair a verdade da pessoa (sua identidade), para que ela consiga ter uma visão ampla de si mesma e realizar-se da melhor maneira possível, ativando suas potencialidades, dons e recursos.

Nesse sentido, o pastoreio de Jesus não tinha nada a ver com poder que se impõe, nem liderança que arrasta, nem controle das consciências. Suas palavras e suas atitudes ativavam a vida; elas despertavam tudo o que estava atrofiado e adormecido no ser humano. Aqueles que escutavam sua voz sentiam que havia algo de vida eterna, que alimentava e dava sentido à própria existência.

As palavras do Bom Pastor transmitiam uma sensação de pureza às pessoas, pois elas passavam a se sentir em harmonia consigo mesmas e conectadas com a nova vida que brotava do interior.

Jesus não só transmitia um novo ensinamento, senão que criava uma relação nova com o povo e de uns com outros, segundo o espírito do Reino. Nesse ministério do pastoreio, a palavra de Jesus manifestava-se cordial, terna, calorosa, pois tocava o coração das pessoas; ela se revelava criadora de futuro ao transformar por dentro a pessoa que a acolhia.

Jesus mesmo mostrava-se como a “Voz” do Pai que se expressava em palavras de vida e que o movia a se aproximar de todas as pessoas, revelando-lhes a dignidade infinita que cada um carregava dentro de si.

Essa era a mais nobre missão de Jesus como Pastor: ensinar os homens e as mulheres para que fossem eles(elas) mesmos(as) em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim, fossem e vivessem em plenitude.

Com sua Voz instigante e mobilizadora, Jesus foi semeando humanidade, despertando o amor criativo, que se fazia vida naqueles(as) que o escutavam e acolhiam sua palavra.

Assim, o “divino pastoreio” evoca a verdade do ser humano, comporta uma provocação, uma proposta que o move a potencializar ao máximo seus recursos internos, revelando aquilo que ele é capaz.

Deixar-se conduzir pela “Voz do Bom Pastor” significa uma autêntica experiência e que tem efeitos explosivos: é novidade que surpreende e às vezes assusta, cria novas expectativas e solicitações, traz mobilização, pede mudança dos costumes e dos velhos estilos de vida, realimenta a liberdade criativa, leva adiante o equilíbrio de cada um em direção a horizontes imprevisíveis, abre uma nova fase de vida…

Aos olhos do Pastor da Galiléia nada é mais perigoso para o espírito humano do que vidas satisfeitas, acomodadas, sem desejos, sem o dinamismo das esperas e o desassossego das buscas; corações quietos, indolentes, medrosos, sem iniciativa, sensatamente contentes com aquilo que são e têm, conduzem à morte. Pelo contrário, como as vidas são repletas de razões, criatividade, entusiasmo e vitalidade quando se inspiram no modo de ser e viver do Bom Pastor!

Por isso, Sua Voz merece ser “escutada” para que ela tenha ressonância no nosso próprio interior e inspire o nosso modo de ser e viver. Inspirado(a) e identificado(a) com o Bom Pastor, todo(a) seguidor(a) se reveste desse “ministério do pastoreio”. Nesse sentido podemos afirmar: “como seguidores(as) do Bom Pastor, todo somos pastores(as) e exercemos esse ministério o tempo todo”.

Tudo começa com a escuta; por sua vez, só escuta quem se encontra numa atitude de busca. Quem crê estar em posse da verdade, deixa de buscar; blindado a qualquer questionamento, permanece instalado na “zona de conforto” de sua comodidade.

A pessoa que entra em sintonia com a Voz do Divino Mestre, começa escutando. A escuta requer uma disposição de abertura inicial, que implica flexibilidade para permitir inclusive que as convicções prévias possam ser removidas. A escuta revela seus próprios segredos para quem sabe desnudar-se nela.

Quando, aquilo que “escutamos”, encontra eco em nosso interior, reconhecemos estar em contato com nosso eu verdadeiro e em profunda “sintonia” com a pessoa que nos fala. Isto é o que acontecia com os seguidores de Jesus e o que continua acontecendo conosco quando lemos o evangelho: ao perceber que a palavra de Jesus “lê” nosso interior, nós a reconhecemos como própria e “comungamos” com sua pessoa, na unidade de vida que transcende o tempo e o espaço.

É preciso, então, educar os ouvidos para aprender a escutar, escutar-se, e assim poder dialogar.

“Escutar”, do termo latino “auscultare”, implica atenção e concentração para entender e poder ajudar.

Consequentemente, escutar as palavras e os gestos, os silêncios, as dores e raivas, os gritos de insegurança e de medo; escutar os tímidos e os sem voz, escutar os gemidos de Deus na dor dos pobres e sofredores; escutar o que se diz e o que se cala e como se diz e por que se cala; escutar também as ações, a vida, que com frequência negam o que se proclama nos discursos. Muitos desfazem com seus pés o que buscam construir com suas palavras.

Texto bíblico:   Jo. 10,27-30 

Na oração: Dar o maior e mais amplo espaço possível ao Pastor interior e deixar-se conduzir por Ele em todas as circunstâncias, em todo tempo e situações da vida. Ele o(a) conhece como ninguém e como ninguém faz emergir tudo aquilo que o Pai colocou em seu coração como criatividade, imaginação, intuição…

– “Ex-ponha-se” diante d’Ele, deixe ressoar Sua Voz em seu interior; deixe-se transbordar, surpreender pela   presença d’Aquele que mobiliza seus melhores recursos.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

05.05.22

Voz do Pastor

Dom Francisco Cota

Dom Francisco Cota

Em 10 de junho de 2020 foi nomeado pelo Papa Francisco, o sexto bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG).

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