Destaques Formação Permanente

Carne que vivifica

O Pão que eu darei é a minha Carne para a vida do mundo.

(Jo 6, 41 – 51)

Continuamos nossa caminhada pelo capítulo seis do evangelho de João. Passamos pela multiplicação dos pães à revelação do pão da vida que é a carne vivificadora de nosso Cristo. Quem comer deste pão viverá para sempre (Jo 6, 51). O Evangelista João nos apresenta um duro diálogo com os judeus que murmuravam, semelhante ao murmúrio de dos hebreus na caminhada pelo deserto (Ex 17,3), por não aceitarem a pretensão de Jesus em se apresentar como “o pão descido do céu”. A dimensão da carne designa a natureza humana, dimensão da gestação, da descendência. O povo que murmura contra Jesus conhece sua origem humana, sabem que seu pai é José, conhecem sua mãe Maria (Jo 6, 41), por isso a dificuldade em aceitar a palavra de Jesus e que Ele nos vem e nos dá a vida de Deus, Vida Eterna.

O Verbo se fez Carne (Jo 1, 14). Nós nos acostumamos a compreender o termo “carne” como sendo aquilo que traz sofrimento, dor e morte, é o homem em sua condição de fraqueza. Mas é na carne de Cristo que se manifesta a Salvação do mundo pela sua Paixão, Morte e Ressurreição. Num primeiro momento, dor e sofrimento, mas é a alegria da Ressurreição que nos impele para Vida Plena.

Pensemos em nosso corpo-carne muitas vezes ferido pelo pecado, pela indiferença, pela desigualdade, pela falta de oportunidades. Observemos as marcas que trazemos em nossa carne e que nos faz ser únicos, que nos faz ser pessoa. Essas marcas retomam nossa história, nossa origem, nossa caminhada pelo mundo. São muitos os traumas, as marcas que trazem o corpo-carne: machucados, cicatrizes, brigas, revoltas, queimaduras, fome, estupros, abortos, suicídios, morte. Mas é Cristo Jesus que vem a nós para nos dar vida e vida em abundância! Transforma nossa carne sofrida em carne para a ressurreição.

Desde a antiguidade corpo-carne é entendido como algo estranho ao homem. É fruto e causa do pecado, ainda hoje é perceptível uma desvalorização do corpo, tanto no sentido da reflexão filosófica, como mesmo na reflexão teologia, talvez por ele ser considerado corruptível, finito ou apenas ser o portador do espírito. Mas em nossa fé não há essa desvalorização! Cristo em seu corpo humano, padecente na cruz, nos deixou sua carne e seu sangue em alimento para a vida. Em sua totalidade, é o pão que nos dá força e coragem para seguir nossa caminhada ao Reino Eterno. Por isso, nossa carne é a nossa totalidade enquanto humanos e categoria fundamental da personalidade. O pão vivo que desceu do céu sacia definitivamente a fome de vida que todos nós temos em nosso coração. Só é preciso acreditar, aderir ao plano salvífico de Deus, a caminhada de Jesus, seus ensinamentos de vida, sua proposta de amor mútuo aos irmãos, aquele que crê tem vida eterna (Jo 6, 47).

Portanto, quando alimentados pela eucaristia, carne e sangue de Jesus Cristo, somos convidados a pôr em prática seus ensinamentos de vida. Primeiro, é que nós cristãos vivamos a lógica da partilha, os bens são graça de Deus para todos os homens, por isso a caridade em nosso coração é muito importante. Devemos partilhar aquilo que temos com quem nada tem: cinco pães e dois peixes, cinco mil homens alimentados.

Se temos fome de vida e recebemos o alimento para a plenitude da vida, somos convidados a defender toda e qualquer vida humana! Por isso somos desfavoráveis à proposta de legalização do aborto que tramita no Supremo Tribunal Federal e da pena de morte! Essas medidas vão contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa humana. São feridas que prejudicam o mais profundo da carne humana, a morte, a crueldade, a não-existência.

Cantemos com o salmista para nos encorajar ainda mais na vivência da fé cristã: Saboreai e vede como o Senhor é bom (Sl 77). Pois Deus está sempre empenhado a nos oferecer o alimento para a vida eterna!

 

* Lucas André Pereira (Seminarista) / 1º Teologia – PUC Minas – Diocese de Sete Lagoas

 

Para aprofundamento:

BÍBLIA DE JERUSALEM. São Paulo: Paulus, 2002.

DEIFELT, Wanda. Corpo e o cosmo. Escola Superior de Teologia – IEPG

DEHONIANOS. Unidos pela palavra de deus proposta para escutar, partilhar, viver e anunciar a palavra nas comunidades In: <http://www.dehonianos.org/portal/18o-domingo-do-tempo-comum-ano-b/> Último acesso em ago. 2018.

MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. Trad.: Álvaro Cunha. São Paulo: Paulinas, 1983.

WALTY, Ivete Lara Camargos. Corpus rasurado. In: WALTY, Ivete Lara Camargos. Corpus rasurado: exclusão e cânone na narrativa urbana. Belo Horizonte: Editora PUC Minas: Autêntica, 2005. p. 65-72.

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Em 10 de junho de 2020 foi nomeado pelo Papa Francisco, o sexto bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG).

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