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Espiritualidade,caminho para a vida

“A semente da vida eterna cresce em nós dia a dia, mas esse processo não pode ser concebido como o crescimento de uma planta, que ocorre passivamente; ele se parece, antes, com o desenvolvimento da personalidade, sempre dependente da ação do ambiente e da nossa liberdade.” (BERNARD, p.89).

 

Desse modo podemos conceber que a nossa espiritualidade está diretamente conectada à nossa vida e existência inteiras. Não somos seres fragmentados, particionados ou separados como que em gavetas, somos seres totais e nesta totalidade, que é nossa humanidade toda, a espiritualidade faz-se presente com sua contribuição e importância.

Em verdade a espiritualidade que cultivamos é como que o constructo de nossas atitudes e pode se revelar no nosso cotidiano através de situações corriqueiras, ou seja, – algo próximo de nós – pelo modo que agimos diante de determinados acontecimentos se pode acessar a noção de como anda o nosso cultivo espiritual. Não é novo para nenhum homem hodierno que: “estamos inseridos num contexto pós-moderno em que o cansaço das massas é também o cansaço próprio de cada humano, na ânsia dos acertos, o erro, inevitável à condição humana, torna-se motivo de vergonha e desesperança.” (grifo próprio). E por que não dizermos que por vezes o erro é também desculpa para o não cultivo da nossa espiritualidade? Se nos seccionamos, dificilmente a espiritualidade ocupará uma “seção” relevante nessa nossa divisão, afinal como nos lembra Byung-Chul Han no seu livro Sociedade do Cansaço: “A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos.””(p.22). Tomado esse conceito, ou melhor esta realidade indiscutível podemos de antemão concluir que definitivamente para a presente sociedade a seção da espiritualidade não é considerada importante.

É como se a espiritualidade passasse a ocupar uma segunda ou terceira categoria na ordem dos interesses, porém, o que acontece em muitos casos é de a espiritualidade ser deixada de lado de tal maneira que só é buscada e ou lembrada num momento de dor ou de profunda tristeza, como se esta fosse remédio para tais males. Entretanto, regar esta semente da vida eterna que é a nossa espiritualidade é atividade diária, que perpassa toda a nossa vida em todos os círculos de interação que nos são concernentes: afetivo, laboral, social, familiar, religioso. Destarte não é tarefa última, mas primeira, fomentar a nossa espiritualidade na simplicidade do ente que se apresenta na individualidade que nos constitui e torna-la instrumento de proximidade para com o outro, pois pode nos ocorrer o equívoco de relacionar a espiritualidade ao intimismo.

A espiritualidade nos arremessa por primeiro para dentro de nós mesmos a fim de que, uma vez encontrada a força interior possamos nos lançar em favor do outro, eis o lume da santidade para a qual encaminha-nos a espiritualidade. O Papa Francisco nos fala acerca disso quando escreve sua exortação apostólica sobre o chamado à santidade na mundo atual: “não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.”(Gaudete et exsultate,25).

Espiritualidade é assim, “praticamente um verbo”, que exige movimento, ou melhor, pressupõe saída, doação, desejo, cumprimento e como todo verbo faz, por sua própria força, que saiamos das nossas zonas periféricas de conforto, da estabilidade, do hirto e assim nos tornemos habitados por anseios que nos movem e edificam. Insisto: espiritualidade não é distante, não exige estudo, mas por primeiro o desejo de cultivá-la e fazer que dê frutos como aquelas sementes que “caíram em terra boa” (Mt 13,8).

O reto cultivo da nossa espiritualidade tem papel decisivo na nossa peregrinação de volta à casa do Pai. Como supradito, ainda que em outros termos, nós somos seres materiais e espirituais, criados imagem e semelhança d’Aquele que nos criou foi impresso em cada homem e mulher a semente que dá a vida e nos fomenta na força para a busca da salvação. A espiritualidade tem este intuito de nos elevar de modo tal que possamos alcançar a salvação na plenitude da vida que é eterna em Deus.

 

Rafael Lucas Bastos Ribeiro, seminarista da Diocese de Sete Lagoas

Discente do 4º período de Teologia na PUC-Minas.

 

Referências:

BERNARD, Charles André. Introdução à teologia espiritual. São Paulo: Loyola, 2014.

BÍBLIA DE JERUSALÉM.

FRANCISCO,Papa. Gaudete et exsultate. São Paulo: Paulinas, 2018.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: RJ: Vozes, 2017.

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Dom Francisco Cota

Dom Francisco Cota

Em 10 de junho de 2020 foi nomeado pelo Papa Francisco, o sexto bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG).

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