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O Pão para um dia

Na proposta capitalista a troca de bens por dinheiro é uma constância. Não pode ser apenas para um momento ou para o suficiente. Todos os dias a propaganda deve exercer o papel de aguçar o desejo para algo mais, e depois, mais um pouco, e mais outro tanto, até estarmos com tantas coisas que já não sabemos o que aproveitar agora. Acumulamos objetos, roupas, materiais diversos, lixo e até comida. Estranho é que alguns não tem nada enquanto outros tem até demais.

Quando no Evangelho os discípulos pedem a Jesus para ensiná-los a orar e o Mestre apresenta o Pai Nosso como prece profundamente transformadora, aparece lá a expressão “o pão nosso de cada dia”. Trata-se de uma oração que pode ser chamada de “Compêndio do Evangelho”, ou coração da apresentação do projeto de Deus para a humanidade. Também chamada de “Oração Universal” numa ação que congrega grupos diversos em um só discurso.

No ano de 407 João Crisóstomo escreveu uma reflexão sobre a oração do Pai Nosso. Questionou sobre o que queria dizer o pão de cada dia: o que é o bastante para cada dia? Descreve que a oração revela não ser necessário pedir coisas como dinheiro, vestes luxuosas, prazeres ou coisas semelhantes. Concentra a atenção, naquilo que é possível para a frágil condição humana, de pedir o que é suficiente para cada dia, sem preocupar-se com o amanhã. Um espécie de “aproveite o dia”, desfrute daquilo que hoje lhe é apresentado.

Pode parecer algo momentâneo ou um discurso modernoso de que só tenho o agora.  E criticamente podemos nos perguntar: como não pensar no amanhã? O Evangelho também ensina: “Não vos preocupeis pelo dia de amanhã” (Mt 6, 34) para estamos livres na caminhada rumo a plenitude do amor. No entanto, somos chamados a planejar, estabelecer e construir projetos e planos de ação para a concretização do Reino e para a realização da felicidade para todos. O que não precisamos é demasiadamente acumular coisas e preocupações, desgastarmo-nos com seguranças externas ou falaciosas liberdades que escondem nosso medo de enfrentamento da realidade.

Trilhar o caminho da liberdade no amor que Deus nos oferece é sinônimo de confiar Nele, na providente suficiência, para que estejamos profetizando, no cotidiano, sentido pleno do pão, que é nosso, para todos. Amplia-se, então, a certeza de que a partilha de bens, vivida hoje, garantirá vida para todos também no amanhã, e por todo sempre seremos cumpridores da grande lição “aqui na terra, como no céu”.

Padre Evandro Bastos

Voz do Pastor

Dom Francisco Cota

Dom Francisco Cota

Em 10 de junho de 2020 foi nomeado pelo Papa Francisco, o sexto bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG).

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