Formação Permanente

Roteiro Homilético – 6º Domingo da Páscoa ( 22 de maio)

O Espírito Santo ensinará todas as coisas

I. INTRODUÇÃO GERAL

Nos domingos anteriores, contemplamos a presença do Ressuscitado no meio de seus seguidores, contemporâneos e atuais. Tratou-se de um momento privilegiado de alegre encontro com o Mestre e também de fortalecimento de seus ensinamentos. Agora, o Ressuscitado prepara os seus para nova forma de presença na ausência. Ele se despede de seus seguidores. É esse momento específico que somos chamados a vivenciar, na fé, nesta celebração do 6º domingo da Páscoa.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 15,1-2.22-29)

A primeira leitura nos traz o motivo da realização da “assembleia de Jerusalém” (At 15,3-21) e seu resultado: a decisão de enviar representantes da Igreja de Jerusalém, com Paulo e Barnabé, a Antioquia. A questão geradora da necessidade de uma viagem a Jerusalém foi o ensinamento de alguns membros dessa Igreja a respeito da circuncisão. Os “vindos da Judeia” podem legitimamente ser chamados de “judaizantes”, porque ensinavam que era condição de salvação para os cristãos antioquenos, vindos da gentilidade, fazer-se circuncidar.

A circuncisão era exigência feita a todo e qualquer pagão que se convertesse ao judaísmo, e os “vindos da Judeia” queriam impor essa mesma condição aos irmãos procedentes da gentilidade que se propusessem aderir à nova fé. Se assim fosse, antes de assumir a fé cristã, seria necessário fazer-se judeu. Paulo e Barnabé, com toda razão, não aceitaram tal ensinamento, por ser desprovido de sentido. Esse tema foi amplamente discutido, e o resultado foi que a Igreja, representada na assembleia, não só acolheu a “liberdade paulina” relativamente a essa questão, mas também enviou seus próprios representantes para confirmar o ensinamento de Paulo e Barnabé, pois, do contrário, a condição para tornar-se cristão seria tornar-se antes um judeu. Isso aponta para o processo de distinção do grupo cristão em relação ao grupo judeu.

A decisão da assembleia de Jerusalém não é, porém, uma decisão puramente humana; é também divina, e isso se expressa no texto pela frase: “Porque decidimos, o Espírito Santo e nós…” (v. 28).

2. II leitura (Ap 21,10-14.22-23)

A segunda leitura nos traz a descrição da nova Jerusalém, que desce de junto de Deus e brilha com sua glória. Essa cidade tem coisas muito especiais, que chamam a atenção: a ausência de templo e a não necessidade de sol.

O templo é o lugar natural do encontro das pessoas com Deus, mas, nessa cidade, já não existe distância entre Deus e o ser humano e, portanto, não existe a necessidade de um lugar de aproximação. A comunhão está estabelecida.

Essa cidade também não necessita dos astros criados para presidir o dia e a noite (cf. Gn 1,14-19), pois o próprio Deus e o Cordeiro iluminam tudo. E mais: essa cidade tem uma muralha, tem por alicerce os apóstolos e tem portas nas quais estão inscritos os nomes das tribos de Israel. Isso revela que o povo de Deus que habitará a nova Jerusalém, os cristãos, vem de ambas as tradições religiosas e se compõe de judeus e gentios.

3. Evangelho (Jo 14,23-29)

No Evangelho deste dia, Jesus fala a seus discípulos algo um tanto intrigante para nossa mente moderna: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada” (v. 23).

Separemos as afirmações para melhor compreender a mensagem. Nessa frase, a afirmação principal é a última: a promessa de que o Pai e Jesus permanecerão/morarão na pessoa. Essa promessa está condicionada ao amor que a pessoa tenha a Jesus e à acolhida de sua palavra. Essa palavra de Jesus é a palavra do Pai, que o enviou. Parece contraditório: ora a palavra é de Jesus, ora é do Pai. Como entender isso? A compreensão de que a palavra de Jesus seja também a palavra do Pai se sustenta em outra afirmação joanina célebre: “Eu e o Pai somos UM” (Jo 10,30).

Na sequência, Jesus ressuscitado recorda aos discípulos que nada disso lhes é novo, porque ele mesmo já tinha falado quando estava com eles (v. 25) – clara referência ao tempo de seu ministério público. Como se isso fosse pouco, o Senhor promete o Paráclito, o Defensor, que ensinará tudo, mas também recordará todo o ensinamento dado antes por ele.

Antes de ir-se, Jesus deseja a paz, que nada tem que ver com a pax romana, “a paz que o mundo dá” (v. 27), imposta pela força esmagadora de um exército forte, poderoso e assustador. Jesus ressuscitado consola os seus: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (v. 27); ou seja, não sofram, mas alegrem-se por mim, porque vou para junto do Pai. O texto termina com uma promessa: “Vou, mas voltarei a vós!” (v. 28).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

As leituras desta celebração nos conduzem ao reconhecimento da identidade dos cristãos, o novo povo de Deus. Esse reconhecimento é dom do Espírito e nos chega progressivamente.

No Evangelho, o Senhor promete que o Pai enviará o Espírito e este nos ensinará todas as coisas. A primeira leitura atesta um momento crucial, no qual o Espírito Santo ensina algo fundamental sobre a salvação dos cristãos e, consequentemente, sobre sua identidade: a não necessidade de circuncisão para a salvação. A segunda leitura ratifica, de certo modo, esse ensinamento do Espírito Santo quando atesta a composição dos cristãos na imagem das portas e alicerces da cidade: as doze tribos de Israel e os apóstolos.

Os cristãos – portanto, a Igreja – têm como fundamento os apóstolos, mas seus membros vêm do judaísmo e da gentilidade, e formam um único povo de Deus, habitando uma cidade que não tem outro templo ou luz que não seja o próprio Deus e o Cordeiro.

Rita Maria Gomes, nj*

*é natural do Ceará, onde fez seus estudos em Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde lecionou Sagrada Escritura. Atualmente é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura. E-mail: [email protected]

Reprodução: Revista Vida Pastoral

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Dom Francisco Cota

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Em 10 de junho de 2020 foi nomeado pelo Papa Francisco, o sexto bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG).

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